sábado, 28 de junho de 2008

Mecanismos de ação dos glicocorticóides

E como é que os corticóides agem em nosso organismo?

Os hormônios corticóides agem por meio de dois mecanismos: o de ação tardia e o de ação rápida. Esses hormônios são conhecidos principalmente por seus efeitos mediados pela ação tardia, que envolve regulação ao nível da transcrição gênica, podendo aumentar ou diminuir a transcrição e conseqüente tradução dos genes alvos.


(Mecanismos de ação tardia dos corticóides)

Quanto aos mecanismos de ação rápida, sabemos que eles independem de transcrição gênica mediada por sinalização via receptores nucleares, estando sim relacionados com sinalização rápida via receptor de membrana plasmática, acoplado a proteína G, via reação em cascata; tratando-se de um tipo de resposta que ocorre principalmente em órgãos como músculo, pâncreas, coração, tecido adiposo, sistema imune e cérebro.
O efeito mais notório da ação rápida de glicocorticóides está relacionada ao feedback negativo que ocorre após o estimulo que leva à produção desses hormônios. Sabemos que esse estímulo (estresse, jejum etc.) culmina com a produção de CRH pelas células neuroendócrinas do núcleo paraventricular do hipotálamo, que por sua vez estimula a produção de ACTH por células da adenohipófise, que por fim estimula as adrenais a produzirem o hormônio corticóide. Mas quando é que o organismo fica sabendo que está na hora de parar (diminuir) essa síntese? Em um artigo publicado em dezembro de 2006, na revista Endocrinology, foi mostrado que esse feedback negativo ocorre por meio de sinalização rápida, quando o hormônio corticóide produzido se liga a um receptor de membrana de célula neuroendócrina, acoplado a proteína G, que leva à ativação de uma reação em cascata que culmina com a produção de um lipídio endógeno denominado endocanabinóide, que por sua vez liga-se ao seu receptor(CB1) em uma outra célula neuroendócrina, inibindo assim a síntese de glutamato,neurotransmissor responsável pela sinapse que ativa essas células a produzirem CRH.



Dos glicocorticóides, o mais notável no organismo humano é o cortisol, que apresenta uma grande plasticidade quanto aos efeitos que medeia, atuando nos mais diversos sistemas do nosso organismo, abrangendo órgãos como cérebro e rins, sistema cardiovascular, sistema imune, tecido conjuntivo, participando até mesmo da maturação do feto durante o desenvolvimento embrionário. Mas nos nossos estudos de biobio, o cortisol se destaca por sua atuação na homeostase glicêmica, onde durante o estresse/jejum ele atua na ativação da transcrição dos genes de todas as enzimas que contribuem para a quebra de TAG, para a gliconeogênese, para glicogenólise e para a quebra de proteínas, a fim de que se tenha um aumento nos nível glicose no sangue.


Dos mineralocorticóides, a aldosterona é a estrela da regulação do balanço hídrico eletrolítico, sendo sua produção estimulada quando a pressão arterial está reduzida, bem como os níveis de sódio no sangue. Assim, suas ações levam ao aumento da pressão arterial por que aumenta a captação de sódio pelas células epiteliais dos dutos coletores dos rins. Também é válido lembrar que a aldosterona possui outras ações, como ações não-epiteliais e também não genômicas, que contribuem para a variedade de ações que desempenha na homeostase da pressão sanguínea, incluindo células alvo no coração.


E por fim, queremos lembrar que os esteróides sexuais produzidos nas glândulas adrenais são precursores convertidos perifericamente nos potentes hormônios sexuais como a testosterona e o estradiol. São precursores importantes na menopausa, onde o estradiol de origem adrenal direta ou indireta contribui para a atividade estrogênica. Bom pessoal, esperamos que agora os corticóides não sejam mais nenhum bicho de sete cabeças para vocês, e para refletir, quero deixar uma célebre frase de um médico, que nos faz olhar mais criticamente quanto à utilização indiscriminada de corticóides, atualmente considerados a “menina dos olhos” da indústria farmacêutica, no tratamento de diversas patologias, especialmente as de cunho alérgico: “ os corticóides são o melhor caminho para você levar o seu paciente para a cova”. Até mais!!! Tássia
Ah! só mais uma coisinha... a bibliografia que eu utilizei tanto para o painel quanto aqui para o blog é a seguinte:
- JMC Connell, E Davies.. The new biology of aldosterone. Journal of Endocrinology 2004
-Necela Brian M, Cidlowski JA. Mechanisms of Glucocorticoid receptor action in noninflammatory and inflamatory cells. Proceedings of the American Thoracic Society vol 1 2004.
-K. Takahashi et al. Supression of cytokine-induced expression of adrenomedullin and endothelin-1 by dexamethasone in T98G human glioblastoma cells.Peptides 24 (2003) 1053-1062.
-Tasker et al. Minireview:Rapid glicocorticoid signaling via membrane-associated receptors. Endocrinology Dec 2006 147(12).
-Berne e Levy. Fisiologia (2003)


Um comentário:

Raíssas disse...

O blog mais inusitado que já vi!
O conteudo é muito bom e me foi muito útil, valeu!